quinta-feira, 12 de abril de 2018

A escolha de Aquiles nossa de cada dia

Luís Felipe Bellintani Ribeiro
(Professor de Filosofia da UFF)

O Brasil, como dizia o Tim Maia, é aquele país estranho em que traficante se vicia, puta se apaixona e cafetão sente ciúmes.
Só pra manter a tradição, vamos atualizar a lista: o Brasil é aquele país estranho em que ministro da corte suprema, responsável por julgar de fora as lides segundo o critério da constitucionalidade, entra de cabeça nas refregas e, qual uma das partes querelantes, se mete a corrigir a constituição, como se legislador constituinte fosse.
Brasil-il-il-il-il!!!!
Uma dessas figuraças – gênio da raça – descobriu recentemente estupefato – óóóóó – que a justiça brasilis é sobremaneira morosa, que os poderosos ficam impunes e só quem vai pra cadeia é preto, pobre, puta (o quarto “p” ele não confessaria, mas acrescentamos por nossa conta: e petista).
Não diga?
Como dizem aqui na minha terra: demorô, playboy.
E o que faz sua excelência diante de inédita descoberta?
Para compensar a leniência, que é a dele mesmo e de sua galera do judiciário, manda pra cadeia, com celeridade e truculência ímpares – misto de Ferrari do Neymar com trator do Ronaldo Caiado – um dos poucos políticos do entranho país que em 500 anos de história tentaram fazer alguma coisa pelos pretos, pelos pobres e pelas putas.
Não. Para o pretor brazuca, “poderoso” no estranho país não são os filhos do Roberto Marinho, não são os donos do Itaú e do Bradesco, não é o Lemann, que enche as burras vendendo cerveja de milho para a patuleia, não é a plutocracia rentista, não é o latifúndio grileiro e desmatador, não é o pato da FIESP, nem o mandarinato estatal, do qual seus colegas de toga fura-teto-constitucional são o exemplo escarrado. 
Não.
Esses, para ele, são a “opinião pública”.
“Poderoso”, no léxico do ilustre magistrado, é um retirante nordestino que fez a vida como torneiro-mecânico no ABC paulista e que chegou ao comando do Poder Executivo por ter à mancheia exatamente aquilo que falta a todos os supramencionados: voto popular.
Eu sou do tempo em que voto popular era o critério-mor pelo qual se podia apensar ao substantivo “poder” o adjetivo “legítimo”. Aliás, o “pública” de “opinião pública” significa o mesmo que o “popular” de “voto popular”. Não precisa ser PhD em filologia clássica para intuir o populus por detrás, essa coisa suja e fedida (aos sentidos delicados da elite) chamada povo, mas que continua, até onde eu saiba, ao menos em países pretensamente democráticos – olha aí o povo de novo, agora na forma do grego dêmos – a ser o único fator, a despeito da sujeira e do fedor, de algum embelezamento dessa coisa terrível que é o poder.
Ô meritíssimo, se era pra rasgar a constituição em nome da opinião pública, então o senhor teria não só de dar o habeas corpus pro Lula, que isso já é o que diz a constituição, mas dar-lhe algum plus a mais, tipo aquele que Sócrates mandou, com sua costumeira ironia, na Apologia de Platão: “viver no Pritaneu às expensas do erário até o fim da vida”. Afinal, nem eu nem o senhor nem ninguém neste estranho país continuaria a ser, depois de tanto William Bonner e Rede Globo sentando o pau, reforçados recentemente até com Padilha e Netflix, o cara mais popular da história do país.
Sem mistificação, seu doutor, o cara é o mais popular da história por uma razão nada mística. Porque atacou de frente o principal problema deste estranho país: a desigualdade social. Eis a verdadeira “corrupção”, ilustre juiz, da nossa sociedade, eis a verdadeira imoralidade: que uma economia de tal magnitude albergue, como se fosse a coisa mais natural do mundo, a fome e a miséria. Eu, que não sou cristão nem nada, sinceramente não entendo como uma elite sedizente cristã pôde por 500 anos dormir sono angelical enquanto a imensa maioria dos concidadãos mal se havia com o de comer.
Mas, vá lá, a vida é dura e o tempo é curto, cada um pensa no seu, ok. Ninguém é obrigado a ver o mundo como uma madre Tereza de Calcutá e tudo mundo tem o direito de entregar-se a seu consumismozinho, de orbitar em torno do gozo de seu umbigo, ok. O próprio povão detesta política e decide por puro cálculo pragmático, daí de novo o porquê da imensa popularidade do “cara”. Ok, até entendo que alguém não morra de amores pelo governante sob cujo governo a vida dos mais ferrados ascendeu a um patamar mínimo de dignidade. Mas chegar a odiar visceralmente alguém que traz esse feito no currículo? Que tipo de afeto é esse? Sou socrático, ingenuamente socrático, e tendo a atribuir todo mal a algum tipo e grau de ignorância. Mas, sinceramente, o ódio hiperbólico ao Lula que um naco da sociedade deste estranho país ostenta, ao preço mesmo de sua própria ruína econômica e social, me faz cogitar seriamente da hipótese da perversidade. Perversidade nua e crua: que se danem os mais ferrados. Morram os sujos e fedidos.

Miséria, Isidre Nonell Monturiol, 1904
Fonte: http://www.ciudadpintura.com


Adoram, os desta elite colonizada, tudo que cheire a isteites e zoropa e não se dão conta da pagação de mico que é apresentar-se nas praças turísticas overseas com esse passivo às costas legendado em letras garrafais na testa: representante bobo-alegre de uma republiqueta que sequer é capaz de matar a fome de seus cidadãos. E lá vai o bobo-alegre todo pimpão com suas sacolinhas de bugigangas gringas deitar falação contra o Brasil na primeira rodinha de iguais, como se não tivesse a nada a ver com isso.
Idiotas, não percebem que o chique Fernando Henrique com seu entreguismo, além do inglês e francês mal falados, nunca trouxe respeitabilidade ao país. Foi o monoglota de Caetés, retor de prol e psicagogo insuperável, que começou enfim a trazê-la, porque nenhum país será respeitável aos olhos dos outros países enquanto figurar, salvo por razões cataclísmicas, em mapas da fome e quejandos.
Por que haveria um francês de respeitar um país por ser ele governado por um simulacro de francês?
Haveria de respeitá-lo, óbvio, no dia em que fosse governado por um dos seus e para os seus.
Mas deixa eu mudar o rumo dessa prosa, meu leitor, que sinto estar se tornando deveras moralista e rancorosa.
Acredito que toda postura propriamente ética começa por rechaçar a baba e o dedo em riste moralista. Começa numa tolerância infinita para com outrem e na afeição a pensamentos, palavras e realidades complexos, refratários a tratamentos simplistas.
Toda postura propriamente ética começa por não encher a boca para falar: é-t-i-c-a. Podem apostar – é empírico, não apriorístico – por trás de todo moralista empertigado há sempre um depravado inconfessável. As pessoas propriamente éticas são sempre compreensivas e tolerantes, como Buda, Sócrates, Epicuro, Zenão de Cício, Cristo, Madre Teresa de Calcutá e Papa Francisco.
Perdoem-me os leitores: é a raiva por terem prendido injustamente meu presidente, depois de terem derrubado injustamente minha presidenta.
(Querido e querida).
A injustiça, como a inveja, é uma merda.
Deixemos de lado toda idealização otimista quanto a eventuais instintos altruístas do ser humano e voltemos à vaca fria da órbita umbilical que rege inexoravelmente toda ação desse bicho incorrigível, segundo uma visão antropológica tão pessimista quanto realista.
E aí chegamos finalmente ao título do presente post.
A “escolha de Aquiles” é um tema clássico e, como tal, sempre atual e atualizável.
Fala de uma disjunção, em termos lógicos.
Ou ou.
De uma encruzilhada, numa imagética da condição (trágica) própria da existência: ter de decidir por um caminho em detrimento de outro, como a gente faz em cada instante da vida, dando-se ou não conta disso.
A mãe de Aquiles, a nereida Tétis, apresentou-lhe a encruzilhada: ou ia ele à guerra em Troia e enchia-se de glória e renome (kléos), ao preço de abandonar a vida violentamente na flor da juventude, ou ficava em casa gozando de vida longeva até a morte tardia não menos doce que a vida.
Todos sabemos qual foi a escolha do herói, que não chega bem a ser uma escolha, mas um simples assentimento no destino, já que a segunda opção implicaria em Aquiles não vir a ser Aquiles e, na ausência, em tempos arcaicos, de um subjectum feito de arbítrio que pudesse salvaguardar ainda alguma identidade, essa opção seria simplesmente incogitável.

www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=3082660&partId=1
Thetis trying to turn Achilles immortal. Thetis holding Achilles by his rig. After Victor Janssens, c.1700. 
Ademais, se Aquiles não tivesse ido à guerra e brilhado sob a aura da ação bélica, faltaria a Homero a matéria-prima de seu canto, faltaria à Grécia simplesmente Homero, seu educador, e faltaria ao Ocidente simplesmente a Grécia, seu berço.
Talvez o mundo fosse até melhor – sejamos humildes para admiti-lo – sem Aquiles, sem Homero, sem a Grécia e sem o Ocidente.
Mas ao amante com um mínimo de amor fati, e deixando de lado todo juízo quanto ao “melhor” para ficar apenas com o juízo estético, essa ideia é, para dizer o mínimo, insuportável.
E o que isso tem a ver com nosso tema inicial?
Tudo.
Vamos combinar: essas excelências togadas midiáticas e esses seguradores de microfone da Globo devem estar todos faceiros e cheios de si com os tapinhas nas costas, os sorrisinhos e os rapapés que estão a receber nos corredores e salões da casa-grande (e da Casa Branca), mas será que a vaidade e o medo turvam-lhes mesmo a visão a ponto de não perceberem como seus nomes hão de figurar nos livros de História após suas mortes?
Vejam: falo de uma perspectiva egocêntrica e vaidosa mesmo.
Daqui a 50 anos – vá lá, 100, para o caso de quem me lê ser jovenzinho – eu estarei morto, tu, meu leitor, estarás morto, Lula estará morto, Merval Pereira estará morto, os irmãos Marinho estarão mortos, Sérgio Moro estará morto.
Eu e provavelmente meu leitor jazeremos incógnitos sob nossa mãe primeira, Gaia, livres de glória, mas também de opróbrio, mas qual será o kléos de Lula e qual será o kléos de Moro?
Alguma aposta?
Ora, por mais seguro de sua missão moral que o sujeito esteja, a ponto de relativizar tudo que julgue ficar por baixo dela, qualquer ser com mais de dois neurônios não midiotizados sabe que o tal processo do triplex do Guarujá é uma farsa.
Não precisa ser PhD em Direito Constitucional para saber que ninguém pode ser condenado por atos de ofício “indeterminados”. Não ao menos depois de Beccaria.
Ademais, atos de ofício indeterminados em contrapartida de um apartamento furreco, do qual não se tem a escritura, nem as chaves, nem sequer o usufruto de um mísero pernoite.
Pena: doze anos de cana.
Isso no país em que meia tonelada de cocaína num helicóptero pousado numa fazenda não dá nada, se o dono do helicóptero e da fazenda e patrão do piloto contar com a boa-vontade daquele pessoal do microfone, que não empunhá-lo-á dia e noite no cangote do sujeito, como acontece no caso dos inimigos.
Plim-Plim.
Mas daqui a 100 anos também a Rede Globo estará morta.
Restarão os livros de História. Essa, a História, não morre assim tão fácil, porque é inspirada pela musa Clio, filha do olímpico Zeus e da titanide Mnemosine (Memória), todos imortais.
A imortal Clio (Kleió) é quem confere e mantém o kléos dos mortais.
O filósofo Sócrates soube fazer sua escolha de Aquiles no momento mais crítico de sua vida.
Não seguiu o conselho de Críton e não fugiu da cadeia, embora soubesse que não lhe cabiam as acusações injustamente assacadas por Meleto e sua trupe, Ânito e Licão.
Sócrates e Meleto, ambos, enquanto meros mortais, deviam albergar em si boa cota de bens e boa cota de males, misturadamente.
Como todo mundo, quando olhado de perto.
Mas, de longe, é outra coisa.
Depois de mais de dois milênios, o que alguém ainda é capaz de lembrar de Meleto, senão a ignomínia de ter levado à morte ninguém menos que o filósofo Sócrates, admirado por todos, no Oriente e no Ocidente?
Numa analogia, sem nenhuma idolatria mistificadora, mas numa simples analogia em sentido matemático, como 1 está para 3 assim como 2 está para 6, ou numa versão menos objetiva e mais imagética, o micróbio está para o gigante como a pusilanimidade está  para a magnanimidade, eu diria, com o perdão do micróbio que não tem nada a ver com isso:
Moro, você é o Meleto dessa história.
E Lula, o Sócrates.

domingo, 8 de abril de 2018

Fragmentos de um golpe. IX.

Cena do filme 12 homens e uma sentenca, dirigido por Sidney Lumet, com Henry Fonda, 1957

“Se eles não me deixarem falar, falarei pela boca de vocês. Andarei com as pernas de vocês. Se meu coração parar de bater, baterá pelo coração de vocês”. Vindo de outra pessoa o discurso poderia até soar demagógico, mas de Lula não. Ele encontra nos olhos de quem o escuta alguma verdade. Basta vermos a fisionomia das pessoas que o acompanham, do norte ao sul. Há uma vida antes e outra depois de Lula. Lula é um projeto de sociedade. Se o homem se vê agora ameaçado por uma justiça de exceção, no solo hostil e oligárquico da cultura brasileira, é porque seu projeto transformou realmente algumas estruturas sociais e morais de nosso povo, cuja origem, não esqueçamos, está fundada na dicotomia entre o senhor e o escravo, a casa-grande e a senzala, com seus graus distintos de premiação e castigo. Há uma memória da fome na barriga deste povo, há uma memória da sede que transpira na pele e na fibra quando Lula aparece. Vibra, emudece e grita na garganta como víbora do sertão. O povo pôde comprar TV de mais de 40 polegadas. E dentro da TV se conta a história que se quer contar, para vender mentiras, produzir ídolos ou criminosos, salvadores ou inimigos da pátria. Os grandes jornalecos também: imprimem diariamente a narrativa que seus “podres poderes” encaminham pelos editoriais. A família honesta de classe média, leitora de folhas e vejas, se entende capaz de julgar e de fazer crítica (entenda-se crítica ao PT). Já tinham os dados e as razões para a deposição de Dilma, agora para a prisão de Lula: os ratos saem das tocas e se transformam em juízes, policiais, cientistas políticos, segundo o impulso raivoso de suas vidas vazias em condomínios cheios de coisas. Mas há outra tecnologia de dominação sobre o povo. As igrejas evangélicas cresceram, viraram grandes empresas, dominaram também a TV. O problema não é o pastor existir e garantir os benefícios de seu deus para o lucro de um empreendimento. Nem mesmo me parece um mal salvar a alma de quem lhe concede a fé. O problema é ele querer mais, como se candidatar, ganhar uma eleição, virar vereador, deputado ou senador, e legislar contra a liberdade sexual, a dignidade das mulheres, as cotas raciais, e ainda substituir a filosofia pelo ensino religioso nas escolas, a dúvida humanizada pelo dogma divino. Nem me interessam os pastores, mas que não saiam de seus templos para fazer de suas pregações as nossas leis! Lula não fala de uma igreja, ou de um clube, ou de uma sociedade secreta. O seu discurso pertence ao domínio laico e aberto da pluralidade, ao território da política segundo a compreensão do que lhe é ao mesmo tempo contradição e esperança, antagonismo e utopia, luta e justiça, em razão da possibilidade de convivência humana pacífica, apesar de todas as diferenças étnicas e econômicas que nos separam. Ele veio do interior do nordeste para falar uma só língua, mas uma língua que fosse entendida primeiramente pelos miseráveis e pobres, desempregados e operários, uma língua que representasse essa voz muda como a sua única chance de falar, e não apenas obedecer, baixar a cabeça, pegar as migalhas que lhe sobrassem, sobreviver. A sua política pressupõe a inclusão de todas e todos, por mais difícil que seja fazê-lo, por mais que sempre se recomece, em um país expropriado por acionistas e corporações internacionais, cuja ordem interna se garante com a força da polícia ou do exército. Afinal, é o capataz quem acalma a elite brasileira. No discurso de Lula apenas não podem ser incluídos os intolerantes, aqueles que aprenderam a odiá-lo com mais dedicação do que um caso de amor, porque não aceitam o fato de um metalúrgico ter chegado ao poder e ter ampliado vagas e condições aos negros e negras, aos indígenas e trabalhadores. Se ele e seu partido cometeram erros, foram poucos perto da truculência e injustiça que é assumir a sua condenação na história, em razão de um triplex bem sem graça do qual não tirou proveito algum, ainda que se provasse dele, ainda que o quisesse e pudesse comprá-lo. Foram poucos os erros perto dos tiros que tem levado da direita, perto do que tem feito a imprensa e o judiciário com ele, um vexame de sucesso internacional. O golpe abriu a porteira para se vender o país e as suas riquezas, como nosso petróleo que a lava jato varreu a pretexto de uma guerra contra a corrupção. A memória da fome de Lula sempre será maior e mais verdadeira do que o messiânico jejum de um procurador presa da sua republiqueta. A água chegou ao nordeste, a comida ao faminto, os dentes ao banguela, a carne ao operário, a bolsa ao estudante, o concurso ao professor. Isso é real, isso não será esquecido. O que se condena em Lula é ele ter sonhado um Brasil que proíbe sonhos àqueles aos quais o dia precisa ser preenchido com pão, suor e trabalho, sem ao menos uma janela através da qual se possa aspirar algo para fora de sua classe, fadada à jurisdição do bairro, sucumbida pela sensação de impotência e fracasso perto dos filhos treinados e capacitados da classe média, como bem mostrou Jessé Souza na Elite do atraso. Classe por meio da qual se garante o curso da universidade, uma profissão bem paga, algumas viagens para o exterior e a convicção de que são melhores porque jamais precisariam de bolsa família. O Lula concreto, o Lula de carne e osso, só aguenta tudo isso, com a idade que tem, porque sabe já ser uma ideia, como ele mesmo disse. E uma ideia continua para além das grades. Mas isso não torna menos insuportável o absurdo de vê-lo na realidade condenado e preso para o gozo de uma elite medíocre que se julga superior. Nenhum remendo vai costurar essa ferida que se abriu no país. E não há como oprimir por muito tempo um povo que já se sentiu gente. Por fim, vale lembrar que o nome dos juízes que condenaram Sócrates e Mandela nós esquecemos.

Jason de Lima e Silva

domingo, 1 de abril de 2018

Silêncio

Arnold Böcklin, O silêncio da floresta, 1885 




















Há horas em que o mundo se cala
O céu se expande
E não pensamos nos mortos da cidade

Nem nos vivos que nos afligem

Não é uma hora gratuita
Tudo andou a seu tempo
Como se não tivéssemos pressa
De nos encontrarmos ali
Com as pernas esticadas

Há um róseo cinzento que doura
A melodia desta hora

O ritmo cardíaco de uma gota
No telhado da varanda
Atordoa e consola

Muito pássaro como de hábito
E aquele sopro úmido
Da chuva que passou

Nada é em vão
Mas supor algum sentido
É destruir a beleza de cada coisa

Jason de Lima e Silva

sábado, 10 de março de 2018

Fragmentos de um golpe VIII

Desenho de Franz Kafka, 1916
Fonte: https://www.theparisreview.org/blog/2016/09/14/three-by-kafka/
Como calar todos os ruídos para escrever? Não seria a escrita a vingança mais íntima e arrebatadora do silêncio? Mas quem suporta se calar? Terá medo das vozes se o fizer? Das vozes que no fim das contas parecem confusas e não lhe dizem nada, sussurram apenas desgraças próximas de um simulacro de vida. Para que escrever quando o hábito de ler se torna um crime de pensamento ou uma inutilidade da imaginação, sobretudo se for filosofia ou literatura, coisas que necessariamente transformam quando o peito está aberto e o "pulso ainda pulsa"? A não ser que sejam jornais, os grandes jornais, então está tudo perdoado e já não importa se são jornalistas ou publicitários que preenchem as páginas em branco com suas banalidades, e menos ainda se o leitor acredita ter a manchete alguma verdade, quando não toda a verdade, a ponto de muitas vezes encontrar o que justamente esperava, como se suas ideias já não tivessem sido fabricadas pela porcaria dos periódicos que lê, máquina de notícias e propagandas, ração diária para uma classe que se ajoelha frente aos ricos e julga sem méritos os pobres. É preciso tomar cuidado também com a TV, a “guardiã dos fatos objetivos”, como disse o racista ventríloquo. A TV com sua novela da vida real e com a realidade de sua vida novelada: tudo vem pronto e os verdadeiros problemas nos são desviados, espécie de dedo que nos indica o outro lado de coisa nenhuma, paranoia repetida, para manter na invisibilidade as verdadeiras contradições de classe, as relações de opressão e estímulo, exploração e consumo, obediência e premiação, fracasso e mérito, que constituem nosso modo de agir e pensar socialmente. E para combater o mal que nos apontam, o inimigo público, instituem o pior, tribunais de exceção, recrutas messiânicos, militares em comunidades, atletas milionários, os sem noção de toda a ordem, os que abominam a política quando vivem do Estado, os que condenam a corrupção vendidos ao mercado, os que vangloriam os norte-americanos por amor à pátria, os que odeiam os sem teto e ganham auxílio-moradia, os que discriminam os sem terra porque rendem suas propriedades. Toleramos demais os intolerantes. Agora cresceram, praga que rói a cidade pelas calçadas. E é preciso conviver com quem e para quem o medo de perder justifica a exclusão ou o extermínio. Isso quando abaixo de um deus não se colocam para nos iludir falar em seu nome na terra. Como é fácil ser enganado. Prometem a salvação do país e nos dão a pá para cavar a própria cova. Grande vantagem! E enquanto assistimos passo a passo o fim de nossa frágil democracia, torcemos para que essa anônima vida ao menos valesse um filme fora do roteiro produzido pelos idiotas.

Jason de Lima e Silva 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Chame o ladrão, chame o ladrão!





Acorda amor

Acorda amor Eu tive um pesadelo agora Sonhei que tinha gente lá fora Batendo no portão, que aflição Era a dura, numa muito escura viatura minha nossa santa criatura chame, chame, chame, chame o ladrão

Acorda amor Não é mais pesadelo nada Tem gente já no vão da escada fazendo confusão, que aflição São os homens, e eu aqui parado de pijama eu não gosto de passar vexame chame, chame, chame
chame o ladrão, chame o ladrão

Se eu demorar uns meses convém, às vezes, você sofrer Mas depois de um ano eu não vindo ponha roupa de domingo e pode me esquecer
Acorda amor que o bicho é brabo e não sossega se você corre o bicho pega se fica não sei não Atenção, não demora dia desses chega sua hora não discuta à toa, não reclame clame, chame lá, clame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)

Chico Buarque, 1974
http://www.chicobuarque.com.br/letras/acorda_74.htm

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Ódio, amor e fascismo

O ano não acabou e ainda se tem muito ódio a destilar. É preferível claro sempre viver e falar de amor, ainda que se tenha gastado a palavra como se gasta a lima ao bater à guisa de martelo. Vale amor para tudo, até para os crentes que odeiam a pluralidade de crenças ou a razoabilidade do ateísmo. Assim como vale a palavra paz para todos, até como promessa de quem lucra com a guerra. O ódio corresponde a um sentimento de aversão ou de repúdio por algo. Mas poderia haver um ódio justo ou injusto? Um ódio por exemplo à arrogância escarnecedora do ignorante? Um ódio à suposição de superioridade moral em razão de sua classe econômica ou linhagem familiar? O mais louvável, claro, é não odiar, já que esse tipo de sentimento diminui a potência a cada vez que o estômago se embrulha de asco, a exemplo de quando o barulho da propaganda televisiva torna odiável a televisão. É um afeto, sem dúvida, frequente e politicamente produzido, a exemplo de quando o tom melindroso de uma notícia em uma frase de reprovação tem por finalidade aprisionar seu espectador ao ódio que lhe interessa, para justamente neutralizar sua faculdade de pensamento. 

Cena do filme 1984, dirigido por Michael Radford, 1984, baseado no romance homônimo escrito por George Orwell, 1949

Mas não é difícil ser enganado, pelo ódio e pelo amor, e não é por isso que se desiste de amar, nem se está totalmente livre de odiar. O amor pode até mesmo servir de estratégia coletiva de luta, ou ponte para a transformação de si mesmo, quando seu sentido ultrapassa a romântica expectativa de ser amado na proporção ilusória de quem ama, para se converter na abertura pela qual o mundo se torna admirável, e a vida ganha algum sentido, por existirem pessoas que dizem muito pelo que simplesmente são e são muito pelo que significativamente deixam, estejam vivas ou mortas, entre a infinidade do céu e a escassez da terra. Em contrapartida, para dobrar essa sinistra vontade do ódio que leva alguém a deplorar o que lhe ameaça ou consigo não se identifica, não seria possível retirar desse afeto o princípio ético de suspeita contra tudo o que em nós aparece como desprezível, pequeno demais, tão sem graça perto daquilo que transparece placidez e profundidade, como a alma do oceano? Um verdadeiro amor-próprio pressupõe um desprezo ascético de si mesmo, uma libertação permanente de seu eu, de sua identidade, de seu louvor, como arte de trocar seus méritos pelo conhecimento da história, seus presumíveis talentos pelo estudo das artes, seu orgulho pela superioridade da natureza. E o fascismo inversamente começa quando se mitifica o vazio da brutalidade e se passa a buscar os culpados para as razões de seu ódio, unidade de todos os cansaços e megalomanias, ânimo incansável para destruir o que desconhece, incapaz de se metamorfosear como sentimento para amar o que lhe ultrapassa.

Jason de Lima e Silva

sábado, 11 de novembro de 2017

Barbárie e massificação

"(...) Comecemos pela palavra: barbárie. Os gregos identificavam os bárbaros como incapazes de pólis, ou seja, incapazes de deliberar e agir em razão de uma destinação comum, em razão de uma comunidade. Barbárie significa o reino das paixões sem lei: institui a tirania, de um lado, a escravidão, de outro, como aparece no Banquete de Platão.  Há um fragmento, em todo caso, que é preciso recordar em Heráclito: um filósofo que viveu entre o sexto e o quinto século antes de Cristo. Esse fragmento é um dos muitos tesouros que a tradição nos legou. Diz ele assim: “Más testemunhas para os homens são olhos e ouvidos, se almas bárbaras (barbárous psychas) eles têm” (HERÁCLITO, 1989, fr.107). O que nos diz esse fragmento? Para aqueles que tem a alma bárbara, de nada adiantam seus sentidos, já que não dão sentidos ao mundo do que sentem. Pela primeira vez na história do pensamento, a barbárie não está situada na exterioridade de uma língua ou povo, mas na interioridade do homem, na sua alma. (MATTÉI, 2002, p.93). O que faz com que a alma seja submetida à barbárie? O fato, especialmente, de não se ver livre de seus afetos particulares para o que se mostra, e de não conseguir ouvir além do que já compreende, e por isso mesmo, se recusa a compreender. No seu segundo fragmento, Heráclito diz que a maioria dos homens vive uma inteligência particular. Essa prisão da alma em si mesma, sem abertura para o outro que é o próprio mundo, impede a alma de perceber as coisas tais como são. E um dos trabalhos da dialética de Platão no sétimo livro da República será o de erguer os olhos da alma para além de seu lodo bárbaro através das artes, tais como a ginástica e a música.  A alma, enquanto escrava de sua barbárie, não tem forças, nem direção e nem concentração suficientes para escalar a sabedoria rumo ao bem de todas as coisas, o bem que nos faz pensar. E Jean-François Mattéi diagnostica quatro traços de ressentimento, a partir dos quais se reconhece a atitude daquele que seria um bárbaro: 1. O desconhecimento da beleza de uma obra, a ignorância. 2. A denegação do que é elevado, a pretensão. 3. A incapacidade de criação, a impotência. 4. A vontade de destruição, a regressão (MATTÉI, 2002, p.21). Ignorância em relação à beleza, pretensão sobre o que é elevado, impotência para criar, regressão no destruir. Claro, toda a barbárie se institui no reverso e na dinâmica de uma civilização. Em outras palavras, barbárie e civilização não são senão signos que habitam e configuram a mesma humanidade. Como se um pêndulo na terra variasse seu compasso entre a medida da excelência e a pretensão da estupidez, a potência de criar e a obstinação de destruir ou nada significar. Quando Ortega y Gasset fala em direito à vulgaridade, ele fala, em outros termos, no direito de ser bárbaro (o que parece um contrassenso). O direito de opinar sem dar razões, o direito de falar sem saber quem atinge ou o que atinge. A contradição quase genética da democracia é permitir um discurso ou ação contra seu próprio princípio, ou seja, contra a liberdade. E sua morte começa quando está autorizado a qualquer um dizer o que julga pensar sem levar em conta suas razões, sem pensar, justamente, que aquilo que se diz a outros e se faz com outros não tem efeito se não se considerar a diferença. Mais do que a multidão, como Benjamin diz a propósito do conto de Allan Poe, a massa é que tem algo de bárbaro: na ação e palavra de cada indivíduo. Se o homem frustrado e isolado era a condição para o totalitarismo em Hannah Arendt, o homem-massa democrático também o é, sobretudo quando julga falar por uma maioria e age contra o que justamente garante a democracia. E vejam, não é difícil se instituir uma tirania em um terreno democrático, tal como previu Tocqueville em 1835, quando fala em tirania da maioria.  basta a ingenuidade de pensar não apenas que a maioria realmente pensa, mas de que pensa bem e do melhor modo. Se para Ortega y Gasset o homem-massa é o senhor satisfeito e vaidoso, para Tocqueville, a maioria tem adoração por si mesma. Adoração o bastante, poderíamos dizer, para não reconhecer as virtudes sociais das minorias ou, ao contrário, para encontrar facilmente o culpado de todos os seus males reais ou fictícios. Quando o discurso da maioria se volta contra o outro por ser o outro (outra forma de vida e de pensamento), infindável e imprevisível na sua diferença, quando o discurso da maioria se põe contra toda a pluralidade que faz o mundo ser um mundo comum, de seres iguais na sua própria diferença, neste momento apenas um único ego se projeta sobre o corpo individual e social: o ego patriótico, moralista, religioso, salvador da ordem ou do cidadão de bem, pouco importa qual seja (...)."

Trecho do capítulo A barbárie da cultura: massificação e imortalidade, por Jason de Lima e Silva, do livro Dos modernos aos contemporâneos: contribuições, organizado por Ernesto Giusti e Evandro Brito (Apolo Virtual Edições, 2017).