sábado, 11 de novembro de 2017

Barbárie e massificação

"(...) Comecemos pela palavra: barbárie. Os gregos identificavam os bárbaros como incapazes de pólis, ou seja, incapazes de deliberar e agir em razão de uma destinação comum, em razão de uma comunidade. Barbárie significa o reino das paixões sem lei: institui a tirania, de um lado, a escravidão, de outro, como aparece no Banquete de Platão.  Há um fragmento, em todo caso, que é preciso recordar em Heráclito: um filósofo que viveu entre o sexto e o quinto século antes de Cristo. Esse fragmento é um dos muitos tesouros que a tradição nos legou. Diz ele assim: “Más testemunhas para os homens são olhos e ouvidos, se almas bárbaras (barbárous psychas) eles têm” (HERÁCLITO, 1989, fr.107). O que nos diz esse fragmento? Para aqueles que tem a alma bárbara, de nada adiantam seus sentidos, já que não dão sentidos ao mundo do que sentem. Pela primeira vez na história do pensamento, a barbárie não está situada na exterioridade de uma língua ou povo, mas na interioridade do homem, na sua alma. (MATTÉI, 2002, p.93). O que faz com que a alma seja submetida à barbárie? O fato, especialmente, de não se ver livre de seus afetos particulares para o que se mostra, e de não conseguir ouvir além do que já compreende, e por isso mesmo, se recusa a compreender. No seu segundo fragmento, Heráclito diz que a maioria dos homens vive uma inteligência particular. Essa prisão da alma em si mesma, sem abertura para o outro que é o próprio mundo, impede a alma de perceber as coisas tais como são. E um dos trabalhos da dialética de Platão no sétimo livro da República será o de erguer os olhos da alma para além de seu lodo bárbaro através das artes, tais como a ginástica e a música.  A alma, enquanto escrava de sua barbárie, não tem forças, nem direção e nem concentração suficientes para escalar a sabedoria rumo ao bem de todas as coisas, o bem que nos faz pensar. E Jean-François Mattéi diagnostica quatro traços de ressentimento, a partir dos quais se reconhece a atitude daquele que seria um bárbaro: 1. O desconhecimento da beleza de uma obra, a ignorância. 2. A denegação do que é elevado, a pretensão. 3. A incapacidade de criação, a impotência. 4. A vontade de destruição, a regressão (MATTÉI, 2002, p.21). Ignorância em relação à beleza, pretensão sobre o que é elevado, impotência para criar, regressão no destruir. Claro, toda a barbárie se institui no reverso e na dinâmica de uma civilização. Em outras palavras, barbárie e civilização não são senão signos que habitam e configuram a mesma humanidade. Como se um pêndulo na terra variasse seu compasso entre a medida da excelência e a pretensão da estupidez, a potência de criar e a obstinação de destruir ou nada significar. Quando Ortega y Gasset fala em direito à vulgaridade, ele fala, em outros termos, no direito de ser bárbaro (o que parece um contrassenso). O direito de opinar sem dar razões, o direito de falar sem saber quem atinge ou o que atinge. A contradição quase genética da democracia é permitir um discurso ou ação contra seu próprio princípio, ou seja, contra a liberdade. E sua morte começa quando está autorizado a qualquer um dizer o que julga pensar sem levar em conta suas razões, sem pensar, justamente, que aquilo que se diz a outros e se faz com outros não tem efeito se não se considerar a diferença. Mais do que a multidão, como Benjamin diz a propósito do conto de Allan Poe, a massa é que tem algo de bárbaro: na ação e palavra de cada indivíduo. Se o homem frustrado e isolado era a condição para o totalitarismo em Hannah Arendt, o homem-massa democrático também o é, sobretudo quando julga falar por uma maioria e age contra o que justamente garante a democracia. E vejam, não é difícil se instituir uma tirania em um terreno democrático, tal como previu Tocqueville em 1835, quando fala em tirania da maioria.  basta a ingenuidade de pensar não apenas que a maioria realmente pensa, mas de que pensa bem e do melhor modo. Se para Ortega y Gasset o homem-massa é o senhor satisfeito e vaidoso, para Tocqueville, a maioria tem adoração por si mesma. Adoração o bastante, poderíamos dizer, para não reconhecer as virtudes sociais das minorias ou, ao contrário, para encontrar facilmente o culpado de todos os seus males reais ou fictícios. Quando o discurso da maioria se volta contra o outro por ser o outro (outra forma de vida e de pensamento), infindável e imprevisível na sua diferença, quando o discurso da maioria se põe contra toda a pluralidade que faz o mundo ser um mundo comum, de seres iguais na sua própria diferença, neste momento apenas um único ego se projeta sobre o corpo individual e social: o ego patriótico, moralista, religioso, salvador da ordem ou do cidadão de bem, pouco importa qual seja (...)."

Trecho do capítulo A barbárie da cultura: massificação e imortalidade, por Jason de Lima e Silva, do livro Dos modernos aos contemporâneos: contribuições, organizado por Ernesto Giusti e Evandro Brito (Apolo Virtual Edições, 2017).



sábado, 14 de outubro de 2017

Big Brother às avessas

Luís Felipe Bellintani Ribeiro
(professor de filosofia da UFF)

A ideia desse texto é velha, mas só hoje pus mãos à obra. Não queria aborrecer a paciência alheia com uma obsessão que já me carcomera as reservas derradeiras de bom humor. E olha que bom humor é artigo precioso para um “existencialista trágico”, digamos, igualmente antirrealista e anti-idealista (sem substância real e sem sujeito transcendental, resta-nos o humor, oxalá, bom).
A obsessão chama-se “Rede Globo”, que só não é aqui uma metonímia stricto sensu por não se tratar exatamente de tomar a parte pelo todo, mas o quase-todo pelo todo.
As razões para voltar à obsessão, em detrimento da paciência alheia, são duas. De ordens bem diferentes, mas ambas funestas em suas fatídicas magnitudes.
A primeira, a morte de um blogueiro “sujo” (sujo = de esquerda, visto da perspectiva do pessoal da “massa cheirosa”), autor de textos de fina perspicácia, cuja leitura me era dos poucos lazeres restantes nestes tempos de truculenta ignorância. Soube hoje pela manhã que morrera ontem [29/06/2017] Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, blog que recomendo aos viciados em informação política que queiram se desintoxicar da desinformação televisiva.
À família Nogueira meus sentimentos, como expressão de imensurável gratidão pelos textos do Paulo. Na tentativa de reduzir a dívida que permanecerá sempre impagável, a promessa de, até que o câncer venha trazer também a mim a cessação de todas as aflições, lutar pelo sonho de um “Brasil escandinavo”, como o Paulo gostava de dizer, e contra o pesadelo de um Brasil escravocrata e colonial, do qual forças poderosas, dentre as quais a Globo, insistem em não nos deixar despertar.
A segunda razão para voltar à obsessão foi a leitura da uma matéria em outro blog sujo, O Cafezinho, de Miguel do Rosário, que falava de uma pesquisa sobre credibilidade da mídia de vários países pelas respectivas sociedades. Pasmem: a pior mídia do mundo (ocidental “democrático”, pelo menos), a brasileira, aquinhoou de sua respectiva sociedade, uma das mais desiguais do mundo, a medalha de prata, superada apenas pela mídia da escandinava Finlândia, que, diga-se de passagem, já é medalha de ouro em vários outros quesitos: uma das sociedades menos desiguais do mundo tem, não por mera coincidência, a melhor educação do mundo, pública, aliás, como boa parte de sua mídia. E tudo isso sustentado por regime tributário progressivo, ao contrário do brasileiro, em que uma minoria de ricaços – e os mais ricaços dos ricaços são exatamente os irmãos Marinho, da Globo – paga relativamente pouco imposto, e ainda tem o desplante de apoiar reformas, como a trabalhista e a previdenciária, que vão arrancar ainda mais o couro dos mais pobres.
Conclusão: ou a mídia de um país é boa, e por isso goza de credibilidade, ou a mídia de um país é muito ruim – não apenas ruim ou pouco ruim – e, por isso mesmo, forma um público tão estupidificado, capaz de bovinamente nela acreditar.
Na França, em que a mídia é mais ou menos (perto da do Brasil, é uma maravilha), a credibilidade na mídia é baixa.
Mas deixemos as razões para voltar à velha ideia e voltemos à velha ideia.
Ela tem a ver com uma imagem, já clássica, criada por George Orwell numa dessas ficções que fantasiam um futuro sombrio a partir das assombrações de um presente qualquer, estilo ficção científica. Trata-se da imagem do “Grande Irmão”, no romance publicado em 1949, cujo título é o ano em que esse futuro é projetado: 1984.

Cena do filme 1984, dirigido por Michael Radford, 1984, com John Hurt

Aliás, “Big Brother” é uma expressão que uma ampla maioria de brasileiros deve conhecer, embora apenas uma minoria talvez se lembre em que deputado votou na última eleição.
“Big Brother” no Brasil soa a coisa legalzinha, divertida – uhu! –, pois o assombroso do romance de Orwell virou exatamente o “sair da sombra” e ficar famoso num reality show da... Globo. A aversão à ideia terrível de que tem sempre um olho te regulando – não adianta fugir para trás de nenhuma moita – transmutou-se no contrário, no desejo de sempre ser visto por um olho qualquer: a distopia virou utopia. Haja câmera e holofote.
Pois é. No romance a imagem eminentemente negativa é associada a regimes totalitários, à falta de liberdade e privacidade individual, aquele velho espantalho do comunismo (ou socialismo, como no romance), regime que dizem por aí ter fracassado.
(Como se o capitalismo tivesse dado certo...)
Mas os tempos mudam, e do homem, esse bicho que não tem essência pré-determinada como o ornitorrinco tem, se espera qualquer coisa.
Estamos na aldeia global capitalista em 2017 e o futuroso ano de 1984 é um passado jurássico. E a aversão própria do espírito liberal à invasão de privacidade converte-se numa afecção de rebanho, fundada na evasão voluntária da privacidade. Viver não é preciso, mas bater selfie da própria vida para exibi-la no Face é preciso.
O fato é que o reality show Big Brother bombou em várias partes do mundo, para a graça de meia dúzia de espertalhões que patentearam o formato da ideia e a exportaram, mas parece que no Brasil ela adquiriu uma longevidade ímpar, pois devemos ser especialmente dóceis para consumirmos sem mensura tamanha mediocridade.
Mas não é por aí que eu queria traçar a relação entre a distopia de Orwell e a Rede Globo. Não é o programa Big Brother o que está em causa, mas o construto imagético orwelliano enquanto tal. Seu princípio é a otimização da função controladora pela hipertrofia da unidade do olho que vê. Um único vidente pode ver qualquer um a qualquer hora. Todos sabem que o Grande Irmão não está vendo o tempo todo – ele também deve dormir e se distrair – mas ninguém sabe quando ele está vendo, então ele pode estar vendo a qualquer hora.
Impossível não pensar no debate que os sofistas travavam nos séculos V e IV a. C., na diferença que Antifonte estabelecia entre estar sob o olhar de testemunhas e estar a ele encoberto, na imagem de Platão do anel de Giges, um salvo conduto que garantia um encobrimento absoluto, e no que dizia Crítias, de ser a noção de um deus onisciente uma criação dos poderosos que criam as leis em seu benefício, para que os súditos as obedecessem mesmo quando encobertos ao aparelho de controle do Estado, o contrário do encobrimento absoluto de Giges, um descobrimento (a-létheia = verdade) absoluto.


Harou Romain, Projet de peniténcier, 1840
Fonte:http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6262634t/f5.image 

Mas talvez exista uma engenharia ainda mais eficaz, em se tratando de um projeto de vigilância ininterrupta. Não há olho individual que suporte essa função de panóptico absoluto. Mais simples é hipertrofiar a unidade do objeto que é visto e delegar aos vigiados a pachorrenta tarefa da vigilância. Em rodízio, por turnos, por faixas, mas ininterrupta e coletiva vigilância. Ao invés de o Grande Irmão olhando todo mundo, todo mundo olhando a televisão.
Imaginemos uma prisão como a imaginada por Bentham, em que todos os presos estão sentados, voltados para o centro, para a guarita de vidro fumê do Vigilante, mas que agora encontra-se toda recoberta de grandes telões, desses que tem nos estádios de futebol. Oito ao todo, oito gigantes telões, norte, sul, leste, oeste, nordeste, sudeste, noroeste, sudoeste. Imagem de alta definição. Áudio de última geração. Muita cor, muito som, entretenimento, propaganda, “informação”, estes três últimos bem misturados até a total indistinção, 24 horas. Os prisioneiros não querem outra coisa, senão conseguir permissão para uma poltrona mais confortável.
O Grande Irmão deixou a fita rolando – eles que fiquem olhando – e saiu para curtir a vida naquela metade do planeta reservada ao 1% mais rico da população. Só com muito entretenimento aturam-se, cordiais, os 99% restantes que se acotovelam no outro hemisfério.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Do poema ao bruxo: a alquimia do professor

Jason de Lima e Silva

Preâmbulo para a abertura do Seminário PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência), que ocorreu no último sábado. Nesse programa coordeno, junto com o professor Cleber Duarte Coelho, o subprojeto Filosofia. A escola avalia o PIBID era o tema do encontro.

Fui convidado pelos organizadores do evento, a professora Adriana Mohr e o professor Hamilton Godoy, a apresentar algo breve como parte de sua abertura. Algo significativo, provavelmente para fazer jus à palavra seminário, que vem de seminarium e semen do latim, e que significa sucessivamente viveiro e semente, mas também escola e fonte. A ideia é ler um poema de Carlos Drummond de Andrade. Um poema que ele escreve a Machado de Assis, nem é preciso dizer, escritor de primeira grandeza na constelação da nossa literatura: negro, filho de pais escravos alforriados, nascido em 1839 na capital do Império brasileiro, Rio de Janeiro. O poema se chama A um bruxo, com amor. Ele foi escrito em 1959, poucos anos antes de nosso penúltimo golpe de Estado. Machado não é nomeado no poema, mas a Rua Cosme Velho onde viveu e todas as suas personagens, boa parte personagens femininas, reaparecem como fantasmas vivos na memória daquele que o homenageia, o próprio poeta. A ideia é comparar a figura do professor à figura do bruxo ou do alquimista, que dentro de seu seminário, dentro de sua escola, lança as sementes depois de colhê-la do mundo lido e observado, vivido e estudado. A forma de apanhá-las para o florescimento das potencialidades, ou para a transformação de seu ser, dependerá em parte da curiosidade de quem aprende, em parte da generosidade de quem ensina (sem falar das condições oferecidas pela escola, segundo uma política voltada para a excelência da educação pública e democrática). Vamos ver se vale a analogia. Se valer, serve o poema também de homenagem ao professor ou professora, que como alquimista recolhe e lança as sementes do mundo para cada qual resolver o seu próprio enigma, entre os livros e a vontade de amar, como diz o poema. Não é um bruxo do vaticínio ou da adivinhação, mas o sinal para uma destinação possível, quando o afeto de quem aprende se encontra com o valor de quem ensina, pela vontade de compreender o mundo físico ou histórico, linguístico ou social, matemático ou político. Fonte do diálogo entre a dúvida e o saber, o professor espalha no viveiro as sementes reunidas e depois desaparece da vista, dissolve-se, quer lembremos de seu nome, quer esqueçamos definitivamente de sua fisionomia ou de sua voz. Vamos ao poema.

René Magritte, O mestre-escola, 1954

A um Bruxo, Com Amor

Carlos Drummond de Andrade,
do livro A vida passada a limpo,1959

Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
e parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sede de Educacão

Professor Sandro Livramento

“— Estamos vendo as medidas que podemos tomar. Mas depende muito do que a professora quer fazer. A gente não consegue entender de onde saiu essa ideia.” (frase do secretário de educação de Jaraguá do Sul, Rogério Jung para reportagem do clicrbs, 7 de setembro)

Existem muitas possibilidade no caminho da educação. Certamente nenhuma delas é melhor do que a outra ou está em posição privilegiada. Mas em todos os casos, sem exceções, esses caminhos devem levar a uma sociedade mais equilibrada e justa. Caso não seja essa a finalidade, então não é educação.

Um grupo de meninas de 11 anos deu água da privada para sua professora. Não bastando esse horror, a água foi “batizada” com comprimidos. Surpresa?! Infelizmente não.

O espaço da escola pública virou (sempre foi) um lugar de conflito. O que era um conflito entre a classe trabalhadora e as classes dominantes, representadas por seus governos, responsáveis por suas muitas ingerências, por seus descasos e por falta de caminho consolidado para proporcionar uma educação crítica, virou um conflito entre todos. Evidente que tais ingerências também são um projeto de educação, como afirmou Darcy Ribeiro: "A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto."

Dito e dado este fato, o conflito agora atinge seu ápice com marcados confrontos entre os muros das escolas das salas de aulas. São socos, xingamentos, ameaças e todo tipos de agressão. Tudo devidamente autorizado pelo estado-maior das secretarias e dos seus gestores. Sim, coloquem na conta deles o sucesso do seu incrível projeto de educação. Trabalhadores da educação e os filhos dos trabalhadores são vítimas desse projeto. Agora, sem um caminho seguro, eles se digladiam pela miséria de um espaço sem sentido e sem vida.

Os profundos descasos representados pela falta de estrutura, por baixos salários, pela precarização, pelo sucateamento e pela falta de um projeto da classe trabalhadora e para a classe trabalhadora, faz mais uma vez o seu papel. Joga aos jornais os cadáveres necessários para vender a ideia de que é preciso intervir. Assim, pipocam casos e mais casos e os especialistas de plantão dão suas sentenças: faliu, ruiu, desmoronou! Claro que depois vêm as soluções mágicas e prontas. A escola sem partido é uma delas. A militarização é outra. A busca por gestões mágicas e terceirizadas, como a parceira de institutos privados e do sistema patronal são as em voga no momento. Assim, em silêncio, e com o clamor do momento, avança o famigerado apontamento feito pelo mestre Darcy.

Não percebemos que a educação, que a vereda da educação é um espaço do pensar calmo e do fazer cotidiano. Somente podemos reagir com sabedoria se pudermos pensar com a calma necessária para saber o que nesse espaço pode ser transformado.

É certo que essa necessidade passará por um apontamento importante: o espaço da educação do filho do trabalhador e feito por um trabalhador. Não podemos entregar de bom grado sua concepção para pseudos gestores e pseudos intelectuais. Não podemos permitir ser guiados pela crise. Precisamos resgatar o sentido desse existir, desse fazer e dessa possibilidade de criar caminhos para a mais importante intervenção do homem pela sua humanidade. A educação não pode ser um espaço pobre, feito por um trabalhador pobre e para trabalhadores empobrecidos.

Que esse espaço seja o espaço da sede do conhecimento, pela sede de sabedoria e pela busca da nossa humanidade. Afinal, como cantou o poeta:

“Traga-me um copo d'água, tenho sede.  
E essa sede pode me matar.
Minha garganta pede um pouco d'água.
E os meus olhos pedem teu olhar.
A planta pede chuva quando quer brotar.
O céu logo escurece quando vai chover.
Meu coração só pede teu amor.
Se não me deres, posso até morrer.

Gilberto Gil, "Tenho sede", do álbum Refazenda, 1975

Gilberto Gil, Acústico para MTV, 1994



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A era dos espelhos

Filósofo: Diga-me então como viver aqui, se qualquer dúvida já lhes parece um crime? Conversar se tornou uma recreação clandestina.
Escritor: Já não é época para os ouvidos, e quando ouvem, não compreendem. Em contrapartida, as línguas andam afiadas, cheias de tiques para delatar o primeiro que escolhem para acusado, desde que lhes garantam os prêmios. Se faltar a língua, aponta-se o dedo, e ganha-se a liberdade.
Filósofo: Sim, por isso pergunto: como é possível viver neste lugar? 
Escritor: Já não é um lugar, não há mais lugar. Está tudo fechado. Melhor, está tudo aberto. Veja quantos buracos por todos os lados, nas paredes, no chão, nos olhos das pessoas, buracos de medo e de ódio. Arrancam de nossa terra tudo o que temos, luz e floresta, sangue e petróleo, e mais  buracos.
Filósofo: Sim, e o sangue é do povo. Com a ração do governo, o povo não pensa, mas ainda sangra, e aceita de boa vontade sofrer. 
Escritor: Muita gente do povo se julgou rica nos anos dourados, repudiou o governo por dar muita coisa aos pobres, maldisse a justiça por favorecer o trabalhador. O pobre esqueceu de que foi pobre, virou empresário. Agora paga juros ao banco e sua pastelaria não tem clientes, mas continua ligada a TV, e no mesmo canal.
Filósofo: E como vive aquela classe lá adiante nos arranha-céus! Veja só. Andam assustados com a própria sombra, enfurnados nos seus caixotes iluminados, a beira de um colapso, tomados pela insônia na madrugada. Não há que fazer! Por onde afinal recomeçaríamos?

Giorgio de Chirico, O grande jogo (Plaza de Itália), 1971

Escritor: A humanidade? Pelo fim. Só não sabemos o quanto ainda será necessário destruir para termos gente ao nosso lado... e recomeçarmos.
Filósofo: Os bem-sucedidos, os sábios charlatões, os juízes monomaníacos, todos eles abriram muitos buracos nesta Colônia, já maltratada há séculos. Agora nos calam.
Escritor: Talvez em breve nos matem.
Filósofo: Não, que dizes! E restaria algo?
Escritor: E o que resta agora? diga-me. Somente essa grande cidade de espelhos cercada de prédios blindados de vidro, aí estão os sócios, os seguidores discretos e exaltados, os bajuladores de toda a ordem, os empresários falidos também, os pastores propondo suas leis nas assembleias, empreendedores da fé, como babam, meu senhor! os rentistas sempre, sugando a fonte infindável das dívidas! Viste os revoltados da pátria? pedem agora colo para suas mães. Que pátria existe depois da festa sobre nossos minérios e do charco aberto pelos transgênicos? 
Filósofo: Lembre-se, temos de andar pelas margens para os espelhos não nos alcançarem, os atalhos sempre! Se capturam nosso reflexo, somos facilmente confundidos.
Escritor: Eles próprios já não suportam a proliferação de suas imagens. Por isso desejam a guerra, a guerra ou morrem do tédio consigo na frente de seus pares. A guerra pelos espelhos é a primeira de todas. Olhe quantas de suas miragens se projetam nas telas dos edifícios: a lenda, o fabuloso, o herói!
Filósofo: O guerreiro imortal! Boceje à vontade, aqui está o banco, vamos nos sentar e comer. Essa praça ainda é o nosso refúgio e hoje temos um pouco de luz sobre os plátanos e sobre as folhas que cobrem o caminho.
Escritor: Um gole de café, meu amigo, vamos falar baixo e nos sentir livres.
Filósofo: O ar selvagem de um parque abandonado assusta até a polícia, e nos protege.
Escritor: Sim, sim, mas por que afinal seríamos perigosos?

Jason de Lima e Silva